O Dia Zero é uma ideia assustadora. É definido como o dia em que uma grande área metropolitana fica sem água por causa da seca. O termo se popularizou em 2018, quando a Cidade do Cabo, na África do Sul, quase ficou sem — e teve de começar a racionar — água.
A crise original do Dia Zero, porém, já aconteceu do lado de cá do mundo a vários anos atrás: na cidade de São Paulo, em 2014 e 2015.
Com uma população metropolitana de mais de 20 milhões de pessoas, São Paulo retira um quarto dos recursos hídricos de que necessita da bacia hidrográfica do Sistema Cantareira. Mas quando a seca de 2014 — a pior em quase cem anos — reduziu as reservas de água da cidade para menos de 5% da capacidade e secou parte significativa dos reservatórios do Sistema Cantareira, a crise provocou uma segunda ação: durante anos, as áreas ao redor da bacia hidrográfica foram constantemente degradadas.
Devido a uma combinação de uso indevido da terra, poluição agrícola e mudanças climáticas, a bacia hidrográfica anteriormente verdejante havia sido privada de grande parte de sua cobertura florestal original, que protegia o abastecimento de água e mantinha os reservatórios saudáveis. Até 2013, 70% das florestas da região do Cantareira haviam sido destruídas, substituídas por pastagens degradadas.
O Sistema Cantareira precisava de uma reforma.
O Sistema Cantareira, desenvolvido na década de 1970, opera em um equilíbrio delicado. A água se origina de uma série de cinco reservatórios e filtros, percorre um complexo sistema de túneis subterrâneos e passa por uma usina de elevação antes de chegar à Estação de Tratamento de Água de Guaraú, na periferia de São Paulo.
Esses cinco reservatórios desempenham um papel crítico: reter a grande maioria (87%) de sedimentos – partículas que poluem a água a ser tratada e podem causar danos à infraestrutura de tratamento.
Quando reservatórios como o Jaguari, um dos cinco que alimentam o Sistema Cantareira, são cercados por florestas, as árvores naturalmente evitam a erosão dos sedimentos na fonte de água. À medida que as florestas são substituídas por pastagens, no entanto, a erosão acelera.
Os proprietários de terra locais — que normalmente são de baixa renda, ganham menos de US$ 200 por mês e dependem da agricultura tradicional para conseguir sobreviver — desempenham um papel fundamental na proteção desses ecossistemas, mas muitas vezes não têm treinamento e recursos para fazê-lo de forma sustentável.
A seca 2014-2015 abriu os olhos do governo estadual.
Desde o fim da seca, a companhia de água de São Paulo, a Sabesp, começou a investir em práticas de manejo de bacias hidrográficas e treinamentos para agricultores locais com foco em infraestrutura natural: "verde" em oposição a soluções "cinzas". Em vez de construir mais túneis subterrâneos para filtrar a água de reservatórios adicionais, a empresa tem procurado melhorar os recursos hídricos existentes por meio de projetos de restauração florestal e silvicultura.
As matas ciliares — ou áreas úmidas florestais — desempenham um papel fundamental no ecossistema, reduzindo a erosão em mais de um terço e ajudando a aumentar a biodiversidade, ao mesmo tempo em que melhoram a resiliência e a longevidade das bacias hidrográficas.
Restaurar essas florestas em lugares como o Sudeste não é apenas uma escolha ambiental, mas também econômica. De acordo com um relatório do Instituto de Recursos Mundiais, investir US$ 37 milhões em projetos de restauração de ecossistemas pouparia ao Estado quase US$ 70 milhões em custos devido à erosão e consequências negativas à saúde devido à água impura nos próximos 30 anos.
Para a Fundação Caterpillar, restaurar os ecossistemas locais e investir na proteção da infraestrutura natural e vital é uma das principais maneiras de ajudar as comunidades a se tornarem mais fortes, resilientes e sustentáveis.
Por meio de nosso trabalho com parceiros no Brasil, sabemos que enfrentar os desafios do abastecimento de água e infraestrutura é fundamental para a saúde futura e prosperidade de suas comunidades. Nossa abordagem para ajudar a mitigar esse problema em São Paulo foi focar no Sistema Cantareira, que já foi capaz de fornecer água para metade da população paulista e, agora, só atende um quarto dessas pessoas.
Com o crescimento populacional contínuo e os eventos climáticos extremos aumentando nos próximos anos devido às mudanças climáticas, sabíamos que a resiliência do sistema será ainda mais testada. Juntamo-nos a várias organizações que se intensificaram para enfrentar esses desafios, notadamente fornecendo treinamento aos proprietários de terra locais na linha de frente da luta contra a escassez de água.
Em particular, fizemos parceria com o projeto Semeando Água, iniciativa do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE), para capacitar mais de 200 produtores locais em técnicas de infraestrutura natural desde 2013, e ajudou a restaurar mais de 30 hectares de floresta natural.
O IPE também executa uma série de programas educacionais em escolas públicas — capacitando a próxima geração de alunos em técnicas resilientes de gestão de bacias hidrográficas.
Mas sabemos que há muito mais trabalho a ser feito para garantir a resiliência a longo prazo nesta área. De acordo com as estimativas do IPE, os produtores precisarão restaurar cerca de 20 mil hectares de floresta natural nos próximos anos para evitar uma maior degradação na bacia hidrográfica — o equivalente ao plantio de cerca de 35 milhões de árvores.
Assim, à medida que fatores ambientais e humanos ameaçam produzir outro Dia Zero, nós da Fundação acreditamos fortemente que investir em infraestrutura natural pode ser uma das principais maneiras de proteger o futuro abastecimento de água na construção de comunidades prósperas para os próximos anos.
* Artigo publicado pela Together Stronger
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